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Carta do Amante #01

Eu não sei de onde saiu tudo isso. Enquanto eu acreditava ser envolto na mais adocicada das nuvens, algo estranho parecia contornar minha silhueta, esquivando-se para o lado esquerdo do peito, e gritando: acorde. Antes que seja tarde.

Vozes são apenas vozes, e aos esquizofrênicos o calor do abraço vem de uma camisa de força.

E agora o que me resta é o amargo na boca por descobrir que você é a mais solene, sublime, verdadeira e indelével das putas. Destruir corações enquanto brinca com a genitália alheia parece, em algum instante, ser divertido para você. Correção: isso parece ser divertido todo o tempo. Pelo menos para você.

Eu não sei o que te fizeram, ou qual foi a justificativa dada, mas isso não lhe dá o direito de solapar tudo o que, para os outros é precioso. Eu não sei qual é sua desculpa, mas sentimentos são sentimentos. Todavia, putas são putas. Apenas putas. Como você.

E agora eu quero que você veja o rastro de indiferença que deixo diante de você. Quanto a mim, me presenteie com amnésia. Esqueça-se, corra para os braços insignificantes, como os que você achou que eram os meus. Foi seu maior engano. Você usou quem jamais lhe usaria. Você mentiu para quem jamais mentiria para você. Você desprezou quem te tratava como tudo de mais precioso.

A partir de então, eu sigo mais forte. E você, mais puta. Mas só puta, que jamais vai entender o que é estar nos braços de alguém que faria absolutamente tudo por mais um sorriso seu.

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Pedaços de Passado e Solidão

Existe em todo homem uma larga fatia de vazio. Em cada esquina das salas circulares da alegria fingida existe, em seu estado mais puro, a solidão. Fraqueza primeira de todos os homens, tal qual doença crônica, corrói as paredes mais escondidas e tal como a patologia, nasce conosco. Aparece já tarde, talvez demais.

     Contentamo-nos com alegria enlatada porque o caos não permite cronogramas. A infelicidade é tinta de difícil remoção, e tal como a vítima descrente do próprio destino, gritamos, tentando evitar em última instância o que foi selado desde o início. Nosso grito é o sorriso, o despertar libertino, a nudez, a leitura; o amor em todas as maléficas espécies que, no fim, tomam de nós o que jamais nos pertenceu.

     Em poucos indivíduos a solidão se manifesta mais do que em quem encontra no papel o único amigo – traiçoeiro amigo de muitas faces e vírgulas -, pois é só ali, naquele sangue azulado da caneta estourada ou no tintilar mentiroso do cursor, que ele se relaciona, e, em limitado estágio, desaprende por instantes a deixar de ser só. Não existem pessoas, vidas, amores ou felicidades duradouras. Só o papel é eterno, e, mesmo que queime, suas cinzas serão eternamente carregadas dentro do compartimento que o vento jamais levará. A solidão.

     O passado, já tardio, é carne suculenta do voraz animal habitante das savanas de nossa própria alma. Há cores que não existem, e palhetas que jamais serão descobertas. Não existem mais Blues como os de outrora, e, fracos, não há mais compositores. A música ficará presa em cofres intransponíveis, atada à poesia e perdida em insolúvel substância. Tristeza.

     Há, em todo homem, o olhar da garota que espera algo que não sabe o que é. O vento bate em seus cabelos, a luz amarela do poste alto deixando sombras inolvidáveis no asfalto em noite fria. Esperamos pelo que não virá, e pelo futuro inalcançável mastigamos o passado que jamais será corretamente digerido. O ponto final existe até mesmo no término de reticências que, como poeta, não devo utilizar.

     Mas acredito. Creio solenemente no poder do infinito, tendo fé de que o homem não acaba quando termina em solene e intragável filosofia. Fumo cigarros que não terminam no filtro, mas na garganta, porque, ambicioso, aspiro tudo o que, em certa dose, faz-me mal. Sou apenas um homem só, abandonado pelo próprio existir.

     Não mais existo, agora sou. Sou em última esfera. Sou em todos os verbos, luzes e carnes. Sou o último estágio do ser. Sou, enfim. Sou só, sou solidão.

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Homem em Mascarado Fim

      A História nos trouxe até aqui. Perscrutando os tortuosos caminhos medievais, sobrevivendo ao ímpeto revolucionário que espreitou-nos na contemporaneidade, a moral humana agora encara seu abismo infinito enquanto avança, vacilante, pelo solo rochoso do mundo sem chão.

     O homem – agora com minúscula consoante pela ausência de dignidade ou moral distintiva – destruiu seu próprio ser através de filosofias enlatadas que nos são vendidas em maléfica gratuidade. Universidades, livros, estações de rádio, pessoas medíocres ladras de togas e o inimigo-mor do pensamento, aquele retângulo envidraçado que tal qual frangos de padaria seduzem animais insolentes que não acreditam que entre si e a verdade existe apenas vidro; a televisão.

     Pior, então, do que a ausência de ideias é o propagar voluntário de asneiras contraídas sem cólera ou sem o demolir filosoficamente natural de prédios antigos que deveriam dar lugar a jardins. Existem ateus. Existem marxistas. Existem ambientalistas. Existem, existem, existem… qualquer coisa é passível de existir, mas poucas, entretanto, são dignas de ser. A Verdade não existe, a Verdade é.

     Um ateu nega Deus sem saber o que Deus é, confundindo onisciência com hóstias banhadas no vinho. Comunistas negam o dinheiro enquanto são sustentados em maldita bonança pelas universidades ou por governos que gostam de diminuir. E assim, filosofias – no sentido mais promíscuo do verbete com infinitas correspondências – continuam existindo patrocinadas pela alienação do milho posto diante de jumentos alegres por não saberem que o que carregam não é adorno, mas carga.

     Pior, assim, do que jumentos enganados são asnos orgulhosos dos homens que carregam às costas. Brigam entre si e organizam magníficos desfiles, enfeitados com cetim enquanto vangloriam os próprios algozes. E assim, defendem Estados, políticas, religiões, governos e mentiras que agora nos deixam no início do fim.

     Homens não sabem sequer o que negam quando dizem que aquilo não existe. A ignorância nos abraça como amigo fiel em noite fria enquanto sorrimos, agraciados pela existência desse megafone de asneiras patrocinado por todos nós – nós porque não me eximo; minha moral morre em obrigação solidária.

     Não sabemos, e isso é o que nos traz até aqui. Não sabemos por mero e instintivo prazer, com a firme convicção de que por não sabermos, já sabemos demais. E agora, à beira do fim, não há para onde ir. Todas as entradas foram trancadas por fora, todas as mentiras já foram vendidas e Deus foi condensado numa máquina de desejos onde você enfia moedas – ou cartões de crédito, em belíssima filosofia pentecostal – e pede o que quiser. Deus é criatura, disseram-me.

     Não há próximo passo a ser dado. Depois do ar há o fim, a queda vertiginosa enquanto o homem vai de encontro ao nada. Não há um renascer poético, não existe um pássaro forte o bastante para sustentar toda essa corja de salafrários que sempre amou ser tratada assim. Perdemos todas as chances de misericórdia. Aprendemos tudo ao contrário.

     E os que hoje percebem são tolos, animais que, fracos, não existem. Animais que não honram os próprios enfeites – cargas, falo de cargas! – enquanto reclamam do muito milho que a vida lhes deu. Mal sabem todos que o muito na verdade é pouco, e se há melancolia é porque do outro lado da cerca já foi visualizado que muitos zombam daqueles que trabalham de graça. E assim, os que perguntam não existem. Os que perguntam são.

     E o mundo termina num baile bonito de inverno, com mulas mascaradas enquanto não percebem a iminência do próprio fim, beijadas pela falsa moral e pelo indesejável amigo que acolheram muito tempo atrás. A vida estava do lado avesso. Deus não está na lâmpada, as inverdades não estão reunidas, os governos nunca quiseram nosso bem. Mas agora é tarde, e uma a uma as vidas quadrúpedes são empurradas contra o precipício que elas mesmas trouxeram para perto de si.

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Flores em Fôrmas

     Me entristecem vidas vividas pela metade. Pessoas acreditando em ideologias compradas em belíssimas latas de acrílico. Universidades vendem Marx, o governo vende Smith. E nenhum dos dois fornece vida, fornece pensamento, fornece verdade.

     E a vida passa pelo previsível caminho do comum. Olhares são circunscritos ao âmbito dos dedos indicadores. E ninguém se preocupa em plantar poesia para colher canções. Todos estão felizes semeando verdades geneticamente modificadas pela televisão. Sujam até mesmo marcas da revolução, com camisas estampadas vestidas por porcos que desconhecem o sentido da saudade daquilo que nunca tiveram.

     Cansam-me pessoas que projetam em vidas alheias esperanças de melhoras para doenças que apenas elas carregam. Sou saudável por independer da aprovação desses caboclos burgueses que encontram na rotina de oito horas a sustentação dessas bases fracas da sociedade moralmente falida.

     E assim a guerra continua. Bombas no Irã, sistemas econômicos nas salas de renomadas universidades, e ninguém mais se importa com os pobres e atingidos. Atacam-se os meios, não se pensa nos fins. Cansa-me toda essa falácia.

     Sonho em viver menos, para talvez viver melhor. Sonho com menos mentiras, mais sorrisos, menos telejornais, mais bons livros.

     Sonho em deixar de ser humano, em correr pelos campos de flores plantadas corriqueira e aleatoriamente, sem preocupação com o amanhã. Horrendas são essas flores, que belíssimas, estão em fôrmas bem polidas. Flores são isso, apenas flores, não células bem definidas em manipulação.

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Contos

Fotografias de Silêncio e Solidão

        É na tentativa de fotografar o silêncio que se inicia esta história. O que há na quietude de um quarto de casal, com cortinas flamulando, preguiçosas, naquela janela que mostrava o mundo e o Leblon. Incapturável essência, vida jamais vivida por livro algum. Tudo é um quadro em movimento.

       Os lençóis remoem baixo a última noite de amor, insuperável sofreguidão enquanto, sem ruídos, o par de peitos ergue-se sem pressa. Respirando amanhecer, apenas.

       Em aparente sonolência solar, um raio amarelo debruçou-se sobre o rosto de bochechas salientes. Elis abriu os olhos, a presença ao lado da cama fazendo a pele aquecer e a mente viver em recorrente memória tangível.

       Carros passavam em zunido baixo ao longo do apartamento com larga sacada. A vida se iniciava sorrateira na capital do sol. Sublime, alisou a própria camisola e as poucas curvas acidentadas que se erguiam acima da cintura.

       Decidindo pôr-se de pé ainda antes das oito em pleno sábado de adorável calor, foi até às cortinas mudas, afastando-as enquanto a vida a tomava por completo.

        Silêncio, apenas.

      Não havia café posto à mesa – Dolores não trabalhava aos sábados –, e deixando o homem na cama, pisou baixinho no chão de tacos bem lustrados. Suco de maracujá, torradas e geleia bastariam. Colocando o par de óculos e recolhendo o jornal da porta, acordou completamente. Dispôs o café e o amor em amadeirada bandeja, voltando ao quarto onde deixara metade de si.

        Me deixas louca, já dizia a homônima.

       E a cama vazia sorriu enquanto manhã de chuva a saudou. Apenas lençóis esbranquiçados em cândida semelhança com o belo. Um único travesseiro na cama de casal enquanto a chuva batia forte nas vidraças que denunciavam sua loucura.

      Havia esquecido que estava só. Havia esquecido que era só desde que Humberto se fora para sempre. Não presume-se a morte nesta aparente eternidade, mesmo que a partida infinita e a ausência eterna fossem conceitos semelhantes em insubstituível dor ou indelével sofrimento.

       O que era a morte, se não o partir? O que era a ausência, se não o abandono voluntário? O que dói mais, entretanto, é inequívoco.

       Pertencia aos braços de outra – Valéria, Valquíria ou qualquer outro som cortante em inegável adultério –, ainda que restasse preso em débil propriedade e insana saudade nos braços da única que verdadeiramente lhe soube amar.

       Recolhendo os cacos – de vidro e de si –, voltou à cozinha. O mundo caía no Leblon. O amor se esquecera de Elis.

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