Contos

Tudo o que quiser de mim

As correntes prendiam os pulsos fracos e sonolentos do corpo seminu. As pálpebras afastavam-se devagar, o corpo retomando os sentidos enquanto a luz solar violentava as pupilas incapazes de reconhecer o ambiente. A pele macia tocava o chão frio, e a penumbra era quebradiça sob os monólogos polissilábicos de pássaros desconhecidos.

Andorinhas, talvez.

Com a mesma intensidade que os pulmões inflaram-se pela retomada de memórias supostamente recentes, o corpo colocou-se de pé. O peso do metal afixado aos punhos e tornozelos alçou o homem de volta ao chão, de onde não deveria sair.

Frestas de luz invadiam aquela espécie de paiol, com ferramentas e ratos espalhados aleatoriamente. Grãos de poeira zombavam, libertinos, do corpo atado sem saber por quê.

“Ajuda! Ajuda”, gritava em graves mal-orquestrados. “Socorro!”.

Ninguém ouviria, pois bem se sabe que em películas e obras literárias – quiçá na realidade também seja assim. Não sei de muito, quem vos fala jamais foi sequestrado – gritos de socorro ribombam apenas pelas paredes do ambiente algoz. Nenhum carrasco é suficientemente estúpido para manter sua vítima próxima de ouvidos inimigos.

Gotas de água infiltravam-se pelas paredes cobertas de musgo e líquen. Sua garganta seca clamava pelos pingos infantes que escorriam tal qual o leite no seio materno. Calmo, compassado, paciente, buscando não matar quem luta para não morrer de fome. Furiosamente ele lambeu cada uma das pedras, a língua seca e verde pela vida sem fungicida.

Do outro lado do retângulo desconhecido, a porta de madeira escancarou-se. Consciente de seus próprios passos, a capa preta esvoaçava atrás do homem desconhecido. Em suas mãos, algo posto a frente do tronco e apontado diretamente para o prisioneiro, que pelo pavor já gritava em silêncio.

Morreria. Morreria ali! Morreria sem saber porquê! Morreria! Morreria! Céus, morreria com um tiro que lhe espalharia a massa encefálica em belíssima tela póstuma nas paredes acinzentadas!

“Uma jarra de água. Não é necessário lamber as paredes”, o soprano mascarado deixou o recipiente plástico diante do sequestrado e girou nos próprios calcanhares ressecados.

“Não me deixe aqui, não me deixe aqui!” gritou, alternando entre goles esparramados no líquido transparente e uma insistência sem sentido. “Não lhe fiz nenhum mal, sou um bom homem! Me liberte, por favor!”.

A porta bateu, ao longe.

Era o fim daquele que parecia ser o primeiro dia.

***

“Tenho tanta fome”, dizia para si mesmo ainda deitado seminu nas pedras escuras. Urina e fezes maltratavam suas narinas imundas. Em duvidosa escatologia, mirou os montes marrons.

“Existem sapos por aqui. Posso sentir a presença deles”, voltou a afirmar. Colocou-se sentado contra as paredes frias e infiltradas. “Talvez tenham moscas também”.

Pela primeira vez em alguns dias, a porta voltou a abrir-se. O sol forte corroia o manto acetinado que envolvia o homem desconhecido.

“Trouxe comida e água para você se lavar”. Com um sinal, dois corpos miúdos invadiram a cena incompreensível e passaram a recolher as fezes e lavar a urina que já impregnava o chão. Afastaram-se, deixando uma bacia repleta de cristalina substância, e um prato plástico que portava pouca esperança de vida.

Comeu o frango pensando nos sapos que talvez lhe servissem de maior companhia ao longo da maior e mais indesejável estadia.

 ***

“Alfredo! Alfredo! Volte aqui, Alfredo!”, meses passavam, e, sem calendário, ele contava o transcorrer das luas através da própria barba que há muito passara do ponto civilizado. Pausa-se o enredo para interrupção pertinente: o que é civilizado? Há homens de barba que matam e homens sem pêlos que rezam. Cansam a todos aparências prescritas. Voltamos ao ambiente sepulcral.

“Alfredo!”, ele buscava o sapo que talvez existisse noutro lugar além de sua massa cinzenta. Transcrevo-lhe para ajudar na busca: corpo esverdeado, pintas amareladas com centros cinzentos, olhos pretos, coaxa com aparente dignidade e possui pernas musculosas. Se achado, favor entrar em contato com seu psiquiatra.

“Volte, Alfredo! Não deveria tê-lo respondido, eu sei, mas, ora, meu bom rapaz…”.

Surge, como sempre, a capa preta, pouca comida, pás rápidas, empregadas miúdas e nenhuma conversa.

“Vocês viram Alfredo por aí?”, perguntou, antes do baque seco das portas fechando em ignóbil sentença de loucura. “Levem o que quiser, mas me devolvam Alfredo!”.

 ***

“Há muitos anos, perdi um amigo. Alfredo nos deixou, e agora só resta a nós dois, Cecília”, choramingava, olhando para o rosto humano desenhado no prato de plástico com gotas de sangue que escaparam de seu nariz na noite anterior. “Eu espero que você nunca morra, Cecília, e se morrer daqui a alguns anos, por favor me responda quantos anos cabem em um dia”.

Quantos anos cabem em um dia? No dia do homem, cabem poucos meses em algumas horas. Suprema ilusão, o tempo escorria em relógios dadaístas que agora ele aprendera a reconhecer. Fiapos de sanidade ainda prendiam-no à vida após aqueles dois anos, sem que saibamos se esses dois anos passaram em duas semanas ou três instantes distintos de uma peça com poucos atores.

O real é massa de modelar nos olhos dos entes que ali vivem…

 ***

As portas escancararam-se num estalido forte. Sob as mãos grandes e peludas, um prato de comida e uma vasilha com água. Ao fundo, aquele homem deitado, já insano, preso há muitos momentos. Aproximou-se, o nariz expandindo-se para capturar o odor estranho enquanto os olhos escondidos atrás da máscara branca fitavam a mosca solene beijando, saudosa, o homem que morrera.

Em sua jugular, um risco profundo e empapado em líquido superveniente à insanidade. Ao seu lado, a beirada lascada do prato de plástico seco com um sorriso sangrento que talvez tivesse um nome.

“Três anos, cinco meses, dois dias e dezessete horas”, disse para si mesmo, dando as costas para o cadáver. “O tempo mais longo antes que a insanidade seja substituída pelo suicídio”.

Voltou para dentro da mansão, avançando as páginas do diário. Riscou com força o dia 17 de fevereiro.

Paciente suicidou-se. Caso 004 encerrado.

Fechou o diário, despiu-se da máscara e sorriu, pronto para mais uma caçada.

Quanto tempo outra vida levaria para ser substituída pela intragável insanidade?

Há loucos que sobrevivem mais tempo. Há loucos que só morrem aos noventa.

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