Contos

Almas da Guanabara

 

A luz fraca do astro invadia as janelas empoeiradas enquanto a brisa marítima chacoalhava as cortinas brancas em primeiro dia de verão. Havia, naquele silêncio preguiçoso de quarta-feira, o desejo do corpo em atritar-se com o lençol barato comprado duas semanas atrás. Janaína sorria, estendendo os músculos sem coragem enquanto o barulho de xícaras vinha alto do andar debaixo do sobrado carioca.

            Pôs os pés no chão lustroso, o mundo a agarrando pelas pernas brancas. Escorregou pela superfície encerada enquanto ajeitava a alça da camisola de cetim, o pai perdido atrás do jornal alto enquanto a mãe ajeitava os óculos e terminava de colocar a mesa do desjejum.

            — Bom dia, família — riu, servindo-se de café e beijando a careca brilhante do pai.

            Tereza olhou para a própria filha, horrorizada com a cínica atuação. Mães não esquecem filhos. O amor não se escondia dos perseguidos.

            — Bernardo ligou. Oito vezes. — a vozinha da mãe grave ribombava na cabeça da mulher recém-formada.

            — Bernardo é um tosco, mãe. Sabe dos militares e finge que está tudo bem — ela sorriu atrás da xícara de vidro.

            — A senhorita também não está me parecendo necessariamente preocupada com os militares atrás de você também, Janaína! — os gritos começaram cedo.

            A jovem não respondeu, terminando de engolir o café amargo. O barulho da deglutição pareceu ter despertado uma ira maior na mãe.

            — Você vai para a casa do seu avô. E vai hoje!

            — Não há viva alma que me tire do Rio! Fico para ver os generais caírem, um por um! — largou a xícara com violência, voltando para o quarto sob os gritos da mãe. Iria atrás de Bernardo, ainda que o pai chorasse em silêncio pela foto da filha estampada no meio do jornal. Inimiga do regime.

O amor era dolorosamente apolítico.

 ***

— Qual é o seu problema? Meus pais já não me deixam em paz, com você ligando oito vezes, então… — abriu a porta do apartamento, as cortinas recobrindo a vista de Ipanema.

            — Estava preocupado contigo, brotinho — os olhos verdes do homem de ideais fortes e braços magros vieram contra os da garota. Beijaram-se, dolorosamente saudosos. — Precisamos sair daqui.

            — Do Rio?! Nem que me forcem! — Janaína ainda segurava as mechas castanhas do namorado, a sogra a observando ao fundo, lastimosa.

            Via o casal dentro de grades que jamais seriam capazes de transpor.

            — Bom dia, dona Sônia — sorriu, petulante.

            A mulher de meia idade se poupou a resposta, voltando para bater o bolo de fubá com lágrimas.

            — Não ligue para ela. Só está assustada.

            Quem não estava, jovem? Quem não temia o futuro?

            — Luisinho fez panfletos. Vamos distribuir ao longo da Altântica e depois…

            — O quê, Janaína?! — ele puxou a namorada contra as cortinas que davam para a praia calma de areia extensa. — Eu não sei onde você esteve nos últimos dois meses, mas somos perseguidos, Janaína! Dar as caras no meio do Rio não é a conduta mais adequada para…

            — O quê, Bernardo? Você vai se esconder agora?! O regime está quase caindo!

            O ano era 1970.

            — Eu não fico, Janaína. Se você fica, fica sozinha.

            Silêncio de futuro intransponível enquanto se torna presente.

            — Sozinha?

            — E com todo o meu coração.

 ***

Desceram juntos para uma última olhada na praia que – sentiam – jamais voltariam a ver antes da derrocada dos incapazes de tolerar. No fundo, talvez algum dia pudessem sentir falta do fulgor que agora lhes cobrava a liberdade.

            Impassível pavor os consumiu quando os freios gritaram pelo asfalto. O medo da vida era fraquejo letal enquanto os militares desciam, um a um, das latarias reluzentes com canos de metal que, esnobes, ignoravam as condições igualitárias entre os homens que não aprenderam a amar.

            — Corre, Jana! Corre! — puxou a namorada pela mão e passou a não sentir as pernas enquanto as ondas bicolores de Ipanema ficavam para trás.

            O mar escoava contra a areia amarelada em manhã de sublime sol. Um a um os maiôs e sungas viravam-se contra o casal que corria perdido na multidão, a tropa de uniformes acinzentados, rifles polidos e ideias quadradas cobrando o que jamais lhes fora direito.

            Entraram no taxi sem saber explicar como. Com uma sucessão de “acelere, moço!”, tiros de raspão e um motorista apavorado que corria sem saber porquê, pararam diante da baía. As águas cinzentas da Guanabara saudavam o casal que não tinha para onde fugir.

            Os pilares altos da ponte que começava a ser construída desdobraram-se diante dos dois.

            — Parados!

            Dois passos cada um, e a torre de cimento revelou o fundo líquido, de desmedida profundidade.

            — Não sei nadar, Bernardo!

            Passos corriam, subindo a rampa e alcançando o casal.

            — Não é para nadar, meu amor. É para sermos eternos.

            Foram juntos, abraçados. Enquanto a imensidão acinzentada chegava em fulminante suspiro, beijaram-se. Só sentiram a liberdade buscada quando misturaram-se com a água sem fim, duas almas numa cápsula inseparável de destino.

            Morreram por pensar.

            Morreram por achar que todos eram iguais.

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