Contos

Fotografias de Silêncio e Solidão

        É na tentativa de fotografar o silêncio que se inicia esta história. O que há na quietude de um quarto de casal, com cortinas flamulando, preguiçosas, naquela janela que mostrava o mundo e o Leblon. Incapturável essência, vida jamais vivida por livro algum. Tudo é um quadro em movimento.

       Os lençóis remoem baixo a última noite de amor, insuperável sofreguidão enquanto, sem ruídos, o par de peitos ergue-se sem pressa. Respirando amanhecer, apenas.

       Em aparente sonolência solar, um raio amarelo debruçou-se sobre o rosto de bochechas salientes. Elis abriu os olhos, a presença ao lado da cama fazendo a pele aquecer e a mente viver em recorrente memória tangível.

       Carros passavam em zunido baixo ao longo do apartamento com larga sacada. A vida se iniciava sorrateira na capital do sol. Sublime, alisou a própria camisola e as poucas curvas acidentadas que se erguiam acima da cintura.

       Decidindo pôr-se de pé ainda antes das oito em pleno sábado de adorável calor, foi até às cortinas mudas, afastando-as enquanto a vida a tomava por completo.

        Silêncio, apenas.

      Não havia café posto à mesa – Dolores não trabalhava aos sábados –, e deixando o homem na cama, pisou baixinho no chão de tacos bem lustrados. Suco de maracujá, torradas e geleia bastariam. Colocando o par de óculos e recolhendo o jornal da porta, acordou completamente. Dispôs o café e o amor em amadeirada bandeja, voltando ao quarto onde deixara metade de si.

        Me deixas louca, já dizia a homônima.

       E a cama vazia sorriu enquanto manhã de chuva a saudou. Apenas lençóis esbranquiçados em cândida semelhança com o belo. Um único travesseiro na cama de casal enquanto a chuva batia forte nas vidraças que denunciavam sua loucura.

      Havia esquecido que estava só. Havia esquecido que era só desde que Humberto se fora para sempre. Não presume-se a morte nesta aparente eternidade, mesmo que a partida infinita e a ausência eterna fossem conceitos semelhantes em insubstituível dor ou indelével sofrimento.

       O que era a morte, se não o partir? O que era a ausência, se não o abandono voluntário? O que dói mais, entretanto, é inequívoco.

       Pertencia aos braços de outra – Valéria, Valquíria ou qualquer outro som cortante em inegável adultério –, ainda que restasse preso em débil propriedade e insana saudade nos braços da única que verdadeiramente lhe soube amar.

       Recolhendo os cacos – de vidro e de si –, voltou à cozinha. O mundo caía no Leblon. O amor se esquecera de Elis.

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