Textos

Homem em Mascarado Fim

      A História nos trouxe até aqui. Perscrutando os tortuosos caminhos medievais, sobrevivendo ao ímpeto revolucionário que espreitou-nos na contemporaneidade, a moral humana agora encara seu abismo infinito enquanto avança, vacilante, pelo solo rochoso do mundo sem chão.

     O homem – agora com minúscula consoante pela ausência de dignidade ou moral distintiva – destruiu seu próprio ser através de filosofias enlatadas que nos são vendidas em maléfica gratuidade. Universidades, livros, estações de rádio, pessoas medíocres ladras de togas e o inimigo-mor do pensamento, aquele retângulo envidraçado que tal qual frangos de padaria seduzem animais insolentes que não acreditam que entre si e a verdade existe apenas vidro; a televisão.

     Pior, então, do que a ausência de ideias é o propagar voluntário de asneiras contraídas sem cólera ou sem o demolir filosoficamente natural de prédios antigos que deveriam dar lugar a jardins. Existem ateus. Existem marxistas. Existem ambientalistas. Existem, existem, existem… qualquer coisa é passível de existir, mas poucas, entretanto, são dignas de ser. A Verdade não existe, a Verdade é.

     Um ateu nega Deus sem saber o que Deus é, confundindo onisciência com hóstias banhadas no vinho. Comunistas negam o dinheiro enquanto são sustentados em maldita bonança pelas universidades ou por governos que gostam de diminuir. E assim, filosofias – no sentido mais promíscuo do verbete com infinitas correspondências – continuam existindo patrocinadas pela alienação do milho posto diante de jumentos alegres por não saberem que o que carregam não é adorno, mas carga.

     Pior, assim, do que jumentos enganados são asnos orgulhosos dos homens que carregam às costas. Brigam entre si e organizam magníficos desfiles, enfeitados com cetim enquanto vangloriam os próprios algozes. E assim, defendem Estados, políticas, religiões, governos e mentiras que agora nos deixam no início do fim.

     Homens não sabem sequer o que negam quando dizem que aquilo não existe. A ignorância nos abraça como amigo fiel em noite fria enquanto sorrimos, agraciados pela existência desse megafone de asneiras patrocinado por todos nós – nós porque não me eximo; minha moral morre em obrigação solidária.

     Não sabemos, e isso é o que nos traz até aqui. Não sabemos por mero e instintivo prazer, com a firme convicção de que por não sabermos, já sabemos demais. E agora, à beira do fim, não há para onde ir. Todas as entradas foram trancadas por fora, todas as mentiras já foram vendidas e Deus foi condensado numa máquina de desejos onde você enfia moedas – ou cartões de crédito, em belíssima filosofia pentecostal – e pede o que quiser. Deus é criatura, disseram-me.

     Não há próximo passo a ser dado. Depois do ar há o fim, a queda vertiginosa enquanto o homem vai de encontro ao nada. Não há um renascer poético, não existe um pássaro forte o bastante para sustentar toda essa corja de salafrários que sempre amou ser tratada assim. Perdemos todas as chances de misericórdia. Aprendemos tudo ao contrário.

     E os que hoje percebem são tolos, animais que, fracos, não existem. Animais que não honram os próprios enfeites – cargas, falo de cargas! – enquanto reclamam do muito milho que a vida lhes deu. Mal sabem todos que o muito na verdade é pouco, e se há melancolia é porque do outro lado da cerca já foi visualizado que muitos zombam daqueles que trabalham de graça. E assim, os que perguntam não existem. Os que perguntam são.

     E o mundo termina num baile bonito de inverno, com mulas mascaradas enquanto não percebem a iminência do próprio fim, beijadas pela falsa moral e pelo indesejável amigo que acolheram muito tempo atrás. A vida estava do lado avesso. Deus não está na lâmpada, as inverdades não estão reunidas, os governos nunca quiseram nosso bem. Mas agora é tarde, e uma a uma as vidas quadrúpedes são empurradas contra o precipício que elas mesmas trouxeram para perto de si.

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