Textos

Pedaços de Passado e Solidão

Existe em todo homem uma larga fatia de vazio. Em cada esquina das salas circulares da alegria fingida existe, em seu estado mais puro, a solidão. Fraqueza primeira de todos os homens, tal qual doença crônica, corrói as paredes mais escondidas e tal como a patologia, nasce conosco. Aparece já tarde, talvez demais.

     Contentamo-nos com alegria enlatada porque o caos não permite cronogramas. A infelicidade é tinta de difícil remoção, e tal como a vítima descrente do próprio destino, gritamos, tentando evitar em última instância o que foi selado desde o início. Nosso grito é o sorriso, o despertar libertino, a nudez, a leitura; o amor em todas as maléficas espécies que, no fim, tomam de nós o que jamais nos pertenceu.

     Em poucos indivíduos a solidão se manifesta mais do que em quem encontra no papel o único amigo – traiçoeiro amigo de muitas faces e vírgulas -, pois é só ali, naquele sangue azulado da caneta estourada ou no tintilar mentiroso do cursor, que ele se relaciona, e, em limitado estágio, desaprende por instantes a deixar de ser só. Não existem pessoas, vidas, amores ou felicidades duradouras. Só o papel é eterno, e, mesmo que queime, suas cinzas serão eternamente carregadas dentro do compartimento que o vento jamais levará. A solidão.

     O passado, já tardio, é carne suculenta do voraz animal habitante das savanas de nossa própria alma. Há cores que não existem, e palhetas que jamais serão descobertas. Não existem mais Blues como os de outrora, e, fracos, não há mais compositores. A música ficará presa em cofres intransponíveis, atada à poesia e perdida em insolúvel substância. Tristeza.

     Há, em todo homem, o olhar da garota que espera algo que não sabe o que é. O vento bate em seus cabelos, a luz amarela do poste alto deixando sombras inolvidáveis no asfalto em noite fria. Esperamos pelo que não virá, e pelo futuro inalcançável mastigamos o passado que jamais será corretamente digerido. O ponto final existe até mesmo no término de reticências que, como poeta, não devo utilizar.

     Mas acredito. Creio solenemente no poder do infinito, tendo fé de que o homem não acaba quando termina em solene e intragável filosofia. Fumo cigarros que não terminam no filtro, mas na garganta, porque, ambicioso, aspiro tudo o que, em certa dose, faz-me mal. Sou apenas um homem só, abandonado pelo próprio existir.

     Não mais existo, agora sou. Sou em última esfera. Sou em todos os verbos, luzes e carnes. Sou o último estágio do ser. Sou, enfim. Sou só, sou solidão.

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