Textos

Tangível Pobreza

            É amanhã. Neste domingo são vendidas todas as espécies de ilusões que, como boas mentiras, serão creditadas. Pergunto-me por quanto tempo foi assim. Pior: pergunto-me por quanto tempo isso ainda será assim.

            Hoje, ao contrário, foi o dia de uma realidade dolorosamente tangível. Quem vos escreve geralmente se esconde atrás de metáforas que talvez explicam o que sinto, mas, desta vez, falarei não através de poesia e ideologia, mas de imagens, ainda que mentais.

            Imaginem ruas tortuosas com casebres de madeira que, por uma ironia da arquitetura e destino, ainda se mantém de pé. Dentro delas, há pessoas que não sabem como vieram parar ali. A pele repleta de óleo, refletindo o sol forte da primavera enquanto a criança olha a geladeira vazia. Estão no fim do fim, e, sem que percebam, acreditam que, de alguma forma, aquilo jamais irá mudar.

            Na ponta oposta, sobre um belo palco de madeira enquanto traja a camisa de algodão que molda suas formas suínas com absurda propriedade, um homem discursa. Bela e profundamente, com a técnica aprendida em escolas que seus eleitores jamais terão a chance de cursar.

            O que liga os dois extremos? Domínio. A relação política e ideológica exercida pelo homem-porco sobre o faminto cuja única opção – e obrigação – é votar naquele que não conhece – ou ignora, no melhor dos casos – sua existência. E assim continuamos a roda viva do domínio. Uma pena que o previsível final seja sempre o mesmo. O pobre continua pobre, adianto-lhes.

            Enquanto transpassava as ruas estreitas de paralelepípedo dentro daquele humilde Fiat Uno, conheci histórias através de olhares. Histórias que jamais serão contadas, passados que serão esquecidos sob a sombra da ganância daqueles incapazes de observar o próprio ego sob outra perspectiva que não a arrogância.

            Mas amanhã nos é vendida a ilusão de que tudo pode mudar. Neste sete de outubro você pode! Vamos lá, é só apertar o botão confirma! Pontes serão construídas, médicos serão contratados, e, todos sorridentes, as mentiras poderão ser contadas de maneira diferente.

            Não me esqueço, entretanto, que enquanto dominados, pedem pouco e pedem errado. Não mudam, muitas vezes, por acreditarem que alguns trocados em período eleitoral são mais válidos do que um bom candidato eleito. Falo por experiência própria, uma vez que, dentro do mesmo Uno barulhento também estava uma candidata que, impossibilitada de fornecer qualquer outra coisa além de um bom plano de governo – não por falta de recursos, mas por excesso de dignidade, diga-se de passagem – vê-se rejeitada por inúmeros miseráveis que solene e mediocremente acreditam que a solução para tudo aquilo são onças e micos fornecidos por homens que lucrarão o triplo do gasto.

            Alterno, como observador, entre a pena e a soberba. Por que apenar-me de alguém não quer mudar? Por que não ajudar alguém vítima de um determinismo desprovido de dignidade?

            Mas amanhã tudo pode mudar. Amanhã tudo vai mudar. Substituirão a administração do chiqueiro, e como bons porcos dominados e dominantes, se refestelarão na lama por outros quatro anos. Na mesma lama onde crianças morrem por falta de comida, onde idosos padecem por falta de medicamentos e, pior, na mesma lama onde poderiam estar erguidos diversos outros monumentos que louvariam nossas escolhas políticas.

            Mas amanhã tudo pode mudar.

            Entretanto, como bom observador, soberbo e piedoso, duvido desses dias melhores.

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Um comentário sobre “Tangível Pobreza

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