Textos

Antropofagia

Já chequei o horóscopo, aprontei as malas, fechei as cortinas e disse para mim mesmo que era hora de partir. Mergulhei na cama.

Tomaria a falível estrada de meus próprios planos, e ciente da distância do céu, decidi errar. Por conta própria. Talvez ouvisse tiros do lado de fora do quarto.

Empunhei a mala, a mente e a caneta e me pus de pé. Abrindo a porta, saudado pelo nada, um beijo da incerteza. Aquilo tinha de dar certo, tinha de ter um ponto luminoso, um vagabundo vagalume que fosse. Vi-me na rodoviária.

O meu sonho era andar ao contrário, falar primeiro as sílabas da direita, pegar um ônibus que partisse do destino, escrever uma carta que viesse do destinatário. Gostaria de desviver. Desviver não pela amargura de lembranças sórdidas que corroíam tal qual ácido as mucosas do meu viver… Mas desviver pelo simples fato de ser indigno de possuir as sórdidas memórias que não me doem por ter ocorrido, mas por serem memórias.

Indigno. De perdão, de um olhar de misericórdia, de um puxar calmo da mão direita. Num nível mais profundo, indigno por simplesmente se lembrar. Meus pés afundavam na instância mais promíscua do espírito; o anseio por não se recordar.

A caneta prata cintilava em minha mão trêmula, e, em solavancos, morria nas sutilezas. Deixava um pouco de existir em cada aproximar do fim do parágrafo; canibal de mim, escarro de minha própria dor.

E, aos poucos, pé na frente de pé, início na frente de fim, me encerro por não saber ser uno. Dói-me você. Dói-me não mais lhe ter. Dói-me não mais lhe ser. Dói-me ser um.

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