Contos

Propriedades Atômicas do Ar

luzia

Fracassara, mais uma vez. O apartamento estava limpo, a tevê, ligada, e as cortinas balançavam devagar contra a parede que brilhava sob o sol vespertino. E ali estava, jogada sobre o sofá, derrotada em mais uma tarde habitual. Seu desistir era tão intenso que as próprias pernas não conheciam outra posição se não retilineamente dobradas, as mãos sobre as saias floridas, a pele macilenta agora enrugada e oleosa pelo esforço para retirar a poeira dos inúmeros porta-retratos que contavam a história de outros natais, feriados que ela não sabia bem se podia chamar de seus.

Era um espírito domesticado e doméstico. Carregava n’alma o crachá de dona-de-casa, e passar o dorso da mão na testa suada já lhe era repetição habitual ao final de cada repetida rotina. A própria existência, nesta parte do ano — nos malditos sete dias entre o natal e o ano novo — doía-lhe como dói a agonia a qualquer um de nós. É a dor de não ser, a excruciante memória da partícula de possibilidade, que se expressa em letras garrafais na existência de todos nós, risca a alma e alardeia a solidão. Se. 

Seus pares de costela pareciam envolver o que gostaria que não fosse mais protegido. O coração saltava como massa gordurosa no próprio peito, os mais de quarenta anos doendo, enfim. As trezentas e sessenta e cinco possibilidades começavam a se fechar agora, em poucas horas que memoravam-na de sua lamentável capacidade de transformar páginas em branco em coadores de café usados. Não escrevia livros. Não fazia poemas. Sequer sabia calcular. Café coava, entretanto, com maestria. Durante este tempo de conclusões, limitava-se a encarar a parede por detrás da tevê, sem nada sentir, sem jamais existir, sem nunca ter sido. Era apenas dias amontoados para dar sentido a existências que não a dela própria. Uma escrava do confortável sistema de uma casa sem goteiras.

Por um instante, pensou no impensável. Pensou naquilo que, de tão escondido e encravado, pensou jamais existir. Desrespeitando paradoxos, tocou o próprio seio para se certificar de que a vida ainda explodia em si. Vida, riu-se. Aproximou-se da janela e olhou para o Leblon, muito abaixo. Oito andares, dezesseis janelas, incontáveis transeuntes, uma calçada.

A porta se abriu, gritaram por ela e jogaram a mochila pesada no sofá limpo. Mãe, diziam. Mãe, Amor, Mulher. Perguntava-se se ainda sabiam seu nome. Pior: se perguntava se já tivera um nome, um fonema que ligasse o sentido ao rosto, a vida ao momento e que fizesse Deus, por um instante, ter carne. Questionava a si mesma se ainda sabiam que ela vivia, se não era mero cadáver que, talentoso, lavava copos, limpava carpetes, fazia amor sem paixão e acordava junto do sol.

Niilismos à parte, não sentia a vida tão doída ao longo do ano. De janeiro à metade de dezembro, viver não dói. Passando pela semana entre o falso nascimento do salvador e o festival de medíocres promessas, tudo desmorona. Toda a vida lhe esmaga o rosto e comprime os pulmões. Talvez fossem as propriedades atômicas do ar. Na mesma medida em que todos festejavam mentiras vendidas por plantadores de pinheiros e fabricantes de calendários, Luzia era vulnerável às próprias mentiras, que desconstruíam-se sob o olhar alegre e desatento de todos os outros. Jamais fumou; dá câncer. Nunca bebeu; teme a cirrose. Não se permitiu dançar; as fraturas lhe arrancam arrepios. Em hipótese alguma viveu; teve medo de fazer mal.

Era apenas um avental, espanador, rodo e vassoura. Acabara por ser apenas substâncias alheias que sua essência se tornaram enquanto, pouco a pouco, desistia de ser a coragem que ninguém jamais lhe incutira. Era covardia em poucas dezenas de quilos. Não havia sequer potencial para vida. Era como Marte; conjecturas de quem lá viveu, civilizações e inventos construídos, histórias contadas… apenas hipóteses. A vida inteira lhe doía por ser apenas suposição.

Atormentou-lhe a perspectiva de mais um ano sendo a doméstica dos próprios sonhos, lambendo o chão de palacetes que a própria falta de amor lhe permitiu construir. Terminaria com tudo aquilo. Em cabal decisão, mudaria o rumo da própria vida. Trocaria de roupas, mudaria o guarda-roupa, compraria coragem, queimaria o arroz e sairia de casa usando nada além de sapatilhas.

Empacotou todos os vestidos floridos — eram tantos! O desânimo pela vida era tanto que até as roupas lhe compunham a alma. Sempre flores, flores amarelas, brancas, margaridas, sempre a maldita flora de velório —, os sacos pretos tomando toda a superfície da cama larga que fingia dividir com o homem que supostamente deveria amar. Vestiu-se com a peça que guardara para ocasiões especiais que tardariam por chegar: o próprio corpo nu, porque a nudez é o último estágio de toda celebração. Roupas e vidas são apenas fantasias. Mas como de fantasias alimenta-se o homem, pôs o mais belo vestido de cetim. Magenta, sangue, vermelho, gritante.

Desceu sozinha pelo elevador, não cumprimentando o porteiro, um crime moral naqueles cubículos de existência vazia. Roubava olhares pelas poucas quadras até o mar, os cabelos desgrenhados esvoaçando contra a brisa marítima. Se tentasse, até ouviria o violino afinado gritando-lhe aos ouvidos. Viva! Viva! Viva, Luzia, viva! Viveria, desta vez.

Foi com completo desprendimento da carne que encostou o pé na areia. O sol ainda era alto, o mar ainda balbuciava, e o mundo lentamente passou a observar tudo o que a vida ensinou-lhe a esconder. O cetim de sangue perolado brilhava contra a areia clara da praia. Descalçou-se, despudorada. Estava na praia pela primeira vez. Sequer riu. Morava diante do mar, o oceano diariamente quebrantando-lhe o rosto com os ventos de outros mundos… e jamais pisara na areia.

Por fim, correu ao mar. Abraçou a imensidão verde-azulada com a força da vida que nunca tivera. O vestido balançava contra o vaivém inconstante daquela verdade que começava a ser contada só, sublime e pecadora. Não era mais mãe, amor, mulher. Era Luzia. O nome completava a essência e a essência refletia tudo aquilo que ela jamais havia sido.

E por desconhecer a vida, não sabia dos limites do mar. Como a primeira, é infinito. Como seu oposto, é mortal. E foi assim que o chão desapareceu debaixo dos seus pés, a vida lhe engolfando num só abraço enquanto a morte, fiel companheira, sorria em aprovação.

Luzia jamais foi encontrada.

É ela, pois, a mentira que vive dentro de nós.

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A luz de todas as estrelas que não habitam mais em mim

Começamos no interior. Daquele carro, debaixo da luz fraca do poste, da lua crescente do final de maio. Fatigado pelos fatos, passo à essência. Gostavam-se. Pouco tempo para o amor; apenas o primeiro encontro. Apenas a primeira aproximação. Apenas o primeiro indício de colisão.

            Agora, meses — ou anos, décadas, eternidades, sofríveis eternidades — depois, um dos dois precisa de banhos frios ao findar do dia. Para acordar; perceber que acabou. Doem-lhe as verdades que sussurra ao pé da própria consciência. Afoga as próprias ilusões no ralo porque já não há álcool o bastante, então, sofre em resignação debaixo do chuveiro — também ele, vejam só — impiedoso.

            O polo ativo não sente a falta daquele que já não sabe sequer quem é. Até já namorou. De novo, outra vez, outra mentira bem contada. Já o outro se esqueceu de ser, de ter, de possuir. Esqueceu-se de como é estar vivo, sentir o ar nos pulmões, as mentiras na cabeça e o chão nos pés sem que ouça, dentro de si, nas nauseantes entranhas de ectoplasma da própria alma, que tudo é banal, que tudo passa, que tudo é fraco — espanto —; faz mal.

            Mas finge se importar, e é por fingir carinho que o outro ainda junta-se aos seus pés, mendigando afeto. Ama-se incompletamente, lucra com palavras que organiza com amadorismo infantil. Corrigem-me neste exato momento.

            Incapaz de superar o que resta diminuído, ainda o ama. Em silêncio. Quando fala, se odeia. Sente falta das tardes de sábado em que passava em seu colo, carente de abraços e de palavras tão mornas quanto. Sente falta de ser, de ser o que sempre fora, de ser saudade na distância, explosão na proximidade e o aperto incontido do peito. Sente falta da emoção. Não de senti-la, mas de sê-la.

            E agora, de joelhos — ainda no banho —, aperta o próprio seio. O esquerdo. Deseja arrancá-lo, triturá-lo com as unhas e, por fim, afogá-lo nas próprias lágrimas mensais. As próprias mandíbulas, retesadas, doem. A própria existência, estática, machuca.

            Por fim, é apaixonado pela imagem do que não vai voltar a ser. Pelos sábados, pelas noites, pelos cigarros que nunca fumou, pelo perfume caro, pelos lençóis macios, pelas conversas francas. É apaixonado. Nas ilusões faz uma pausa. Estas ele ama. E agora ama apenas o que não vai voltar a ser, tal como a luz das estrelas que há muito não me habitam, mas ainda me massacram com seu brilho.

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Promíscua Sensbilidade

Sua voz era grave como a mais melancólica das sinfonias. As cordas vocais vibravam logo abaixo dos imensos olhos verdes e dos cabelos castanhos agora soltos contra o rosto banhado em perfume barato.

     Podia ser mais uma dessas cantoras que, inacessíveis, presenteiam a humanidade com a voz unicamente sua. Por tortuosos caminhos do destino e pela ironia do mundo incapaz de sorrir, contentava-se em ser puta.

     Girava alto no poste de metal quando os olhos bateram nas portas amplas do bordel. As luzes vermelhas geralmente iluminaram homens cansados de matrimônios falidos, caminhoneiros e bandos de jovens que pagariam caro por uma orgia. Não daquela vez.

     Quando as placas de madeira rangeram desta vez, atrás dos óculos de acetato, não havia o habitual olhar inebriado de homens de marcada mediocridade. Há algum tempo, existira brilho naqueles olhos agora miúdos e semicerrados de desânimo. O rosto largo e belo – marcantemente belo – era apenas profusão de tristeza, entretanto.

     Em algum momento, aquele jovem encontrara inegável decepção. Não um despontar triste ou um chacoalhar da vida destes que cansamos de levar ao longo destes destinos caboclos, mas um abrupto, intenso, indelével e insubstituível sofrimento. Era dor em todas as formas. Era amor em todas as partes.

     Sentou-se diante dela, pondo-lhe uma nota de vinte reais dentro da calcinha. Abriu os braços, mas não sorriu. Avançou sobre o jeans surrado e a camisa de flanela que cheirava a perfume europeu.

     — Esse gato tem nome? — sussurrou ao pé do ouvido, a música abafada pelos lábios artificialmente rubros.

     — Hoje não.

     Mais vinte reais postos na calcinha de renda. Seu corpo e pior, seu olhar – essa cova de sentimentos que o rosto esconde, mas a alma revela – não se entregavam, no entanto. Era um jovem vazio; esvaziado há pouco.

     — Por que não vamos para um lugar mais… reservado? — a última palavra saiu na forma de um muxoxo sensual e promíscuo.

     Não disse sim. Nem não.

     Puxou-lhe pela cintura até as cortinas de veludo que separavam a zona ao meio. Não se interpôs, limitando-se a ajeitar os óculos embaçados e a secar a testa que começava a transpirar no meio de tantas histórias passíveis, mas marcadas. Cada quarto do corredor cultivava uma porta, algumas abertas. Gemidos altos surgiam das paredes de concreto, alguns irrompendo pelo vão de madeira.

     Nunca fizera sexo. Apenas amor. Um emergir de sentimentos, vidas e fisiologia. Contara histórias através e para o corpo. Em seus braços ela aquecia-se, frágil e sua, envolta por amores e edredom. Era passado.

     — Eu devo ter algum nome especial hoje, gato? — ela perguntou, a voz cantada abrindo o cinto e o zíper com habilidade a contragosto aprendida.

     — Silêncio.

     Compreendendo a incompreensível história, limitou-se à biologia. Esqueceu a vida, o mundo, as histórias, seus sonhos… esqueceu-se de como amar.

     Terminaram pouco depois de começar. Ele pôs-se de pé, abotoando a camisa e tirando várias notas de vinte e cinquenta da carteira de couro ganha do pai.

     — Não vou cobrar nada — ela apressou-se em negar a quantia, puxando-a para longe de si, nua e de peitos fartos.

     — Cobre. Putas são a forma mais segura de amar.

     Fechou o zíper de uma só vez e saiu sem olhar para trás.

Continuava vazio. E por muito tempo continuaria, até que o olhar singelo da única que havia sido capaz de amar lhe sumisse por completo das retinas jovens, mas já cansadas.

Promíscua sensibilidade essa trazida pelo amor. Não cobrava, mas levava consigo tudo o que havíamos de bom grado entregue por acreditar que amar transcende preços. Era apenas um jovem de bolsos e coração vazio. O amor não cobra; o amor rouba.

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Fotografias de Silêncio e Solidão

        É na tentativa de fotografar o silêncio que se inicia esta história. O que há na quietude de um quarto de casal, com cortinas flamulando, preguiçosas, naquela janela que mostrava o mundo e o Leblon. Incapturável essência, vida jamais vivida por livro algum. Tudo é um quadro em movimento.

       Os lençóis remoem baixo a última noite de amor, insuperável sofreguidão enquanto, sem ruídos, o par de peitos ergue-se sem pressa. Respirando amanhecer, apenas.

       Em aparente sonolência solar, um raio amarelo debruçou-se sobre o rosto de bochechas salientes. Elis abriu os olhos, a presença ao lado da cama fazendo a pele aquecer e a mente viver em recorrente memória tangível.

       Carros passavam em zunido baixo ao longo do apartamento com larga sacada. A vida se iniciava sorrateira na capital do sol. Sublime, alisou a própria camisola e as poucas curvas acidentadas que se erguiam acima da cintura.

       Decidindo pôr-se de pé ainda antes das oito em pleno sábado de adorável calor, foi até às cortinas mudas, afastando-as enquanto a vida a tomava por completo.

        Silêncio, apenas.

      Não havia café posto à mesa – Dolores não trabalhava aos sábados –, e deixando o homem na cama, pisou baixinho no chão de tacos bem lustrados. Suco de maracujá, torradas e geleia bastariam. Colocando o par de óculos e recolhendo o jornal da porta, acordou completamente. Dispôs o café e o amor em amadeirada bandeja, voltando ao quarto onde deixara metade de si.

        Me deixas louca, já dizia a homônima.

       E a cama vazia sorriu enquanto manhã de chuva a saudou. Apenas lençóis esbranquiçados em cândida semelhança com o belo. Um único travesseiro na cama de casal enquanto a chuva batia forte nas vidraças que denunciavam sua loucura.

      Havia esquecido que estava só. Havia esquecido que era só desde que Humberto se fora para sempre. Não presume-se a morte nesta aparente eternidade, mesmo que a partida infinita e a ausência eterna fossem conceitos semelhantes em insubstituível dor ou indelével sofrimento.

       O que era a morte, se não o partir? O que era a ausência, se não o abandono voluntário? O que dói mais, entretanto, é inequívoco.

       Pertencia aos braços de outra – Valéria, Valquíria ou qualquer outro som cortante em inegável adultério –, ainda que restasse preso em débil propriedade e insana saudade nos braços da única que verdadeiramente lhe soube amar.

       Recolhendo os cacos – de vidro e de si –, voltou à cozinha. O mundo caía no Leblon. O amor se esquecera de Elis.

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Almas da Guanabara

 

A luz fraca do astro invadia as janelas empoeiradas enquanto a brisa marítima chacoalhava as cortinas brancas em primeiro dia de verão. Havia, naquele silêncio preguiçoso de quarta-feira, o desejo do corpo em atritar-se com o lençol barato comprado duas semanas atrás. Janaína sorria, estendendo os músculos sem coragem enquanto o barulho de xícaras vinha alto do andar debaixo do sobrado carioca.

            Pôs os pés no chão lustroso, o mundo a agarrando pelas pernas brancas. Escorregou pela superfície encerada enquanto ajeitava a alça da camisola de cetim, o pai perdido atrás do jornal alto enquanto a mãe ajeitava os óculos e terminava de colocar a mesa do desjejum.

            — Bom dia, família — riu, servindo-se de café e beijando a careca brilhante do pai.

            Tereza olhou para a própria filha, horrorizada com a cínica atuação. Mães não esquecem filhos. O amor não se escondia dos perseguidos.

            — Bernardo ligou. Oito vezes. — a vozinha da mãe grave ribombava na cabeça da mulher recém-formada.

            — Bernardo é um tosco, mãe. Sabe dos militares e finge que está tudo bem — ela sorriu atrás da xícara de vidro.

            — A senhorita também não está me parecendo necessariamente preocupada com os militares atrás de você também, Janaína! — os gritos começaram cedo.

            A jovem não respondeu, terminando de engolir o café amargo. O barulho da deglutição pareceu ter despertado uma ira maior na mãe.

            — Você vai para a casa do seu avô. E vai hoje!

            — Não há viva alma que me tire do Rio! Fico para ver os generais caírem, um por um! — largou a xícara com violência, voltando para o quarto sob os gritos da mãe. Iria atrás de Bernardo, ainda que o pai chorasse em silêncio pela foto da filha estampada no meio do jornal. Inimiga do regime.

O amor era dolorosamente apolítico.

 ***

— Qual é o seu problema? Meus pais já não me deixam em paz, com você ligando oito vezes, então… — abriu a porta do apartamento, as cortinas recobrindo a vista de Ipanema.

            — Estava preocupado contigo, brotinho — os olhos verdes do homem de ideais fortes e braços magros vieram contra os da garota. Beijaram-se, dolorosamente saudosos. — Precisamos sair daqui.

            — Do Rio?! Nem que me forcem! — Janaína ainda segurava as mechas castanhas do namorado, a sogra a observando ao fundo, lastimosa.

            Via o casal dentro de grades que jamais seriam capazes de transpor.

            — Bom dia, dona Sônia — sorriu, petulante.

            A mulher de meia idade se poupou a resposta, voltando para bater o bolo de fubá com lágrimas.

            — Não ligue para ela. Só está assustada.

            Quem não estava, jovem? Quem não temia o futuro?

            — Luisinho fez panfletos. Vamos distribuir ao longo da Altântica e depois…

            — O quê, Janaína?! — ele puxou a namorada contra as cortinas que davam para a praia calma de areia extensa. — Eu não sei onde você esteve nos últimos dois meses, mas somos perseguidos, Janaína! Dar as caras no meio do Rio não é a conduta mais adequada para…

            — O quê, Bernardo? Você vai se esconder agora?! O regime está quase caindo!

            O ano era 1970.

            — Eu não fico, Janaína. Se você fica, fica sozinha.

            Silêncio de futuro intransponível enquanto se torna presente.

            — Sozinha?

            — E com todo o meu coração.

 ***

Desceram juntos para uma última olhada na praia que – sentiam – jamais voltariam a ver antes da derrocada dos incapazes de tolerar. No fundo, talvez algum dia pudessem sentir falta do fulgor que agora lhes cobrava a liberdade.

            Impassível pavor os consumiu quando os freios gritaram pelo asfalto. O medo da vida era fraquejo letal enquanto os militares desciam, um a um, das latarias reluzentes com canos de metal que, esnobes, ignoravam as condições igualitárias entre os homens que não aprenderam a amar.

            — Corre, Jana! Corre! — puxou a namorada pela mão e passou a não sentir as pernas enquanto as ondas bicolores de Ipanema ficavam para trás.

            O mar escoava contra a areia amarelada em manhã de sublime sol. Um a um os maiôs e sungas viravam-se contra o casal que corria perdido na multidão, a tropa de uniformes acinzentados, rifles polidos e ideias quadradas cobrando o que jamais lhes fora direito.

            Entraram no taxi sem saber explicar como. Com uma sucessão de “acelere, moço!”, tiros de raspão e um motorista apavorado que corria sem saber porquê, pararam diante da baía. As águas cinzentas da Guanabara saudavam o casal que não tinha para onde fugir.

            Os pilares altos da ponte que começava a ser construída desdobraram-se diante dos dois.

            — Parados!

            Dois passos cada um, e a torre de cimento revelou o fundo líquido, de desmedida profundidade.

            — Não sei nadar, Bernardo!

            Passos corriam, subindo a rampa e alcançando o casal.

            — Não é para nadar, meu amor. É para sermos eternos.

            Foram juntos, abraçados. Enquanto a imensidão acinzentada chegava em fulminante suspiro, beijaram-se. Só sentiram a liberdade buscada quando misturaram-se com a água sem fim, duas almas numa cápsula inseparável de destino.

            Morreram por pensar.

            Morreram por achar que todos eram iguais.

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Tudo o que quiser de mim

As correntes prendiam os pulsos fracos e sonolentos do corpo seminu. As pálpebras afastavam-se devagar, o corpo retomando os sentidos enquanto a luz solar violentava as pupilas incapazes de reconhecer o ambiente. A pele macia tocava o chão frio, e a penumbra era quebradiça sob os monólogos polissilábicos de pássaros desconhecidos.

Andorinhas, talvez.

Com a mesma intensidade que os pulmões inflaram-se pela retomada de memórias supostamente recentes, o corpo colocou-se de pé. O peso do metal afixado aos punhos e tornozelos alçou o homem de volta ao chão, de onde não deveria sair.

Frestas de luz invadiam aquela espécie de paiol, com ferramentas e ratos espalhados aleatoriamente. Grãos de poeira zombavam, libertinos, do corpo atado sem saber por quê.

“Ajuda! Ajuda”, gritava em graves mal-orquestrados. “Socorro!”.

Ninguém ouviria, pois bem se sabe que em películas e obras literárias – quiçá na realidade também seja assim. Não sei de muito, quem vos fala jamais foi sequestrado – gritos de socorro ribombam apenas pelas paredes do ambiente algoz. Nenhum carrasco é suficientemente estúpido para manter sua vítima próxima de ouvidos inimigos.

Gotas de água infiltravam-se pelas paredes cobertas de musgo e líquen. Sua garganta seca clamava pelos pingos infantes que escorriam tal qual o leite no seio materno. Calmo, compassado, paciente, buscando não matar quem luta para não morrer de fome. Furiosamente ele lambeu cada uma das pedras, a língua seca e verde pela vida sem fungicida.

Do outro lado do retângulo desconhecido, a porta de madeira escancarou-se. Consciente de seus próprios passos, a capa preta esvoaçava atrás do homem desconhecido. Em suas mãos, algo posto a frente do tronco e apontado diretamente para o prisioneiro, que pelo pavor já gritava em silêncio.

Morreria. Morreria ali! Morreria sem saber porquê! Morreria! Morreria! Céus, morreria com um tiro que lhe espalharia a massa encefálica em belíssima tela póstuma nas paredes acinzentadas!

“Uma jarra de água. Não é necessário lamber as paredes”, o soprano mascarado deixou o recipiente plástico diante do sequestrado e girou nos próprios calcanhares ressecados.

“Não me deixe aqui, não me deixe aqui!” gritou, alternando entre goles esparramados no líquido transparente e uma insistência sem sentido. “Não lhe fiz nenhum mal, sou um bom homem! Me liberte, por favor!”.

A porta bateu, ao longe.

Era o fim daquele que parecia ser o primeiro dia.

***

“Tenho tanta fome”, dizia para si mesmo ainda deitado seminu nas pedras escuras. Urina e fezes maltratavam suas narinas imundas. Em duvidosa escatologia, mirou os montes marrons.

“Existem sapos por aqui. Posso sentir a presença deles”, voltou a afirmar. Colocou-se sentado contra as paredes frias e infiltradas. “Talvez tenham moscas também”.

Pela primeira vez em alguns dias, a porta voltou a abrir-se. O sol forte corroia o manto acetinado que envolvia o homem desconhecido.

“Trouxe comida e água para você se lavar”. Com um sinal, dois corpos miúdos invadiram a cena incompreensível e passaram a recolher as fezes e lavar a urina que já impregnava o chão. Afastaram-se, deixando uma bacia repleta de cristalina substância, e um prato plástico que portava pouca esperança de vida.

Comeu o frango pensando nos sapos que talvez lhe servissem de maior companhia ao longo da maior e mais indesejável estadia.

 ***

“Alfredo! Alfredo! Volte aqui, Alfredo!”, meses passavam, e, sem calendário, ele contava o transcorrer das luas através da própria barba que há muito passara do ponto civilizado. Pausa-se o enredo para interrupção pertinente: o que é civilizado? Há homens de barba que matam e homens sem pêlos que rezam. Cansam a todos aparências prescritas. Voltamos ao ambiente sepulcral.

“Alfredo!”, ele buscava o sapo que talvez existisse noutro lugar além de sua massa cinzenta. Transcrevo-lhe para ajudar na busca: corpo esverdeado, pintas amareladas com centros cinzentos, olhos pretos, coaxa com aparente dignidade e possui pernas musculosas. Se achado, favor entrar em contato com seu psiquiatra.

“Volte, Alfredo! Não deveria tê-lo respondido, eu sei, mas, ora, meu bom rapaz…”.

Surge, como sempre, a capa preta, pouca comida, pás rápidas, empregadas miúdas e nenhuma conversa.

“Vocês viram Alfredo por aí?”, perguntou, antes do baque seco das portas fechando em ignóbil sentença de loucura. “Levem o que quiser, mas me devolvam Alfredo!”.

 ***

“Há muitos anos, perdi um amigo. Alfredo nos deixou, e agora só resta a nós dois, Cecília”, choramingava, olhando para o rosto humano desenhado no prato de plástico com gotas de sangue que escaparam de seu nariz na noite anterior. “Eu espero que você nunca morra, Cecília, e se morrer daqui a alguns anos, por favor me responda quantos anos cabem em um dia”.

Quantos anos cabem em um dia? No dia do homem, cabem poucos meses em algumas horas. Suprema ilusão, o tempo escorria em relógios dadaístas que agora ele aprendera a reconhecer. Fiapos de sanidade ainda prendiam-no à vida após aqueles dois anos, sem que saibamos se esses dois anos passaram em duas semanas ou três instantes distintos de uma peça com poucos atores.

O real é massa de modelar nos olhos dos entes que ali vivem…

 ***

As portas escancararam-se num estalido forte. Sob as mãos grandes e peludas, um prato de comida e uma vasilha com água. Ao fundo, aquele homem deitado, já insano, preso há muitos momentos. Aproximou-se, o nariz expandindo-se para capturar o odor estranho enquanto os olhos escondidos atrás da máscara branca fitavam a mosca solene beijando, saudosa, o homem que morrera.

Em sua jugular, um risco profundo e empapado em líquido superveniente à insanidade. Ao seu lado, a beirada lascada do prato de plástico seco com um sorriso sangrento que talvez tivesse um nome.

“Três anos, cinco meses, dois dias e dezessete horas”, disse para si mesmo, dando as costas para o cadáver. “O tempo mais longo antes que a insanidade seja substituída pelo suicídio”.

Voltou para dentro da mansão, avançando as páginas do diário. Riscou com força o dia 17 de fevereiro.

Paciente suicidou-se. Caso 004 encerrado.

Fechou o diário, despiu-se da máscara e sorriu, pronto para mais uma caçada.

Quanto tempo outra vida levaria para ser substituída pela intragável insanidade?

Há loucos que sobrevivem mais tempo. Há loucos que só morrem aos noventa.

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