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Antropofagia

Já chequei o horóscopo, aprontei as malas, fechei as cortinas e disse para mim mesmo que era hora de partir. Mergulhei na cama.

Tomaria a falível estrada de meus próprios planos, e ciente da distância do céu, decidi errar. Por conta própria. Talvez ouvisse tiros do lado de fora do quarto.

Empunhei a mala, a mente e a caneta e me pus de pé. Abrindo a porta, saudado pelo nada, um beijo da incerteza. Aquilo tinha de dar certo, tinha de ter um ponto luminoso, um vagabundo vagalume que fosse. Vi-me na rodoviária.

O meu sonho era andar ao contrário, falar primeiro as sílabas da direita, pegar um ônibus que partisse do destino, escrever uma carta que viesse do destinatário. Gostaria de desviver. Desviver não pela amargura de lembranças sórdidas que corroíam tal qual ácido as mucosas do meu viver… Mas desviver pelo simples fato de ser indigno de possuir as sórdidas memórias que não me doem por ter ocorrido, mas por serem memórias.

Indigno. De perdão, de um olhar de misericórdia, de um puxar calmo da mão direita. Num nível mais profundo, indigno por simplesmente se lembrar. Meus pés afundavam na instância mais promíscua do espírito; o anseio por não se recordar.

A caneta prata cintilava em minha mão trêmula, e, em solavancos, morria nas sutilezas. Deixava um pouco de existir em cada aproximar do fim do parágrafo; canibal de mim, escarro de minha própria dor.

E, aos poucos, pé na frente de pé, início na frente de fim, me encerro por não saber ser uno. Dói-me você. Dói-me não mais lhe ter. Dói-me não mais lhe ser. Dói-me ser um.

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Um mar de mim

sea

Eu não tenho esquinas. Eu não tenho cantos, e isso me atormenta. Não convirjo em nenhum ponto, não sei marcar um ponto de encontro em mim mesmo. Sou oceano. Não há norte quando só se é água.

Como oceano que sou, naufrago. A mim e a outros. Minha própria profundeza me atormenta de modo que não saiba ser nada além de mim. Quero, e por querer, dirijo ao contrário, indigno que sou do fruto do meu querer. Não é autossabotagem, é ser oceano. Por vezes, a própria lua me guia sem que perceba.

Não sou homem, e como tal não sou península. Nem ilha sou capaz de ser. Sou a água que sonda, incauta, precavida. Alguns se atrevem a tocar as minhas bordas, mas sem jamais deixar de sentir o próprio chão arenoso abaixo de si. Me conhecer exige correr riscos que a falta de oxigênio não permite.

Admire minha beleza ao longe, portanto. Minhas curvas tranquilas, minhas ondas serenas diante de rochedos. Tempestades virão, e maremotos são o resultado de dores mais profundas que meu âmago por vezes não comporta.

Me permita ser água, me permita ser oceano. Uno, indivisível. Só.

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Testamento para os que não ficam

Morro agora sem saber se vivi. Morro sem saber se, de tão jovem, ainda não passei por todas as dores ou, se de tão velho, perdi a inocência intrínseca do bom viver. Deixo uma herança, entretanto.
Aos amigos que tanto amei, deixo infinitos pedaços de mim. Aos amantes, deixo minha história. Aos que me rodeiam, pereço num último abraço.
Minha herança é fraca, passível, mas foi com ela que vivi. Essa vida tão passageira agora não me dói graças aos inúmeros arrependimentos, aos infinitos erros, aos inolvidáveis acertos e, por fim, aos inúmeros amores que me fizeram estar aqui.
Morro em paz porque sei que amei. Atormenta-me, entretanto, o arrependimento de não ter amado o bastante.
Que voltemos ao pó, pois infinitos seremos nós aos pés das inalcançáveis estrelas.

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Pessoas em rede

Eu ando meio cansado das pessoas. Eu geralmente tento ver o melhor em cada um desses olhares passíveis que passam por mim, marcantes. Mas a partir de agora, eu não sei mais o que ver.

Histórias profundas? Alegrias desmedidas? Mentiras bem contadas? Eu estou meio enjoado de tudo isso, e, enjoado que estou, agora escrevo até sem poesia.

O mundo está tomado por esses pseudointelectuais que sofrem – um sofrimento esteticamente genuíno, diga-se de passagem – com propriedade atrás de seus óculos largos enquanto o cabelo bagunçado lhes cobre a cara. Ou então, andam em bandos, aquele conjugado de pequenos humanos; tão diminutos em cabeça que esquecem o que carregamos no peito.

Escrevo por simples decepção. Pessoas me cansam. Pessoas são aparentemente cansativas. Todos cultivam um olhar blasé enquanto, maduras que são, vivem a vida em Instagram.

Ninguém mais bebe água na mangueira, cai tombos na rua, fica tardes na rede, faz festas em família, dá risada porque se sujou e tem diarreias com propriedade. Sim, pessoas passaram a ter medo de dizer que vão ao banheiro. (Somos todos humanos fisiologicamente evoluídos, fazemos fotossíntese nessa nova onda hippie com mágicos filtros fotográficos que transformam tudo, menos pessoas vazias).

E assim eu me reduzo nesses poucos goles de cerveja amarga e observo sem atenção enquanto espero, lá no fundo, que surja alguém que mude meu mundo.

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Tangível Pobreza

            É amanhã. Neste domingo são vendidas todas as espécies de ilusões que, como boas mentiras, serão creditadas. Pergunto-me por quanto tempo foi assim. Pior: pergunto-me por quanto tempo isso ainda será assim.

            Hoje, ao contrário, foi o dia de uma realidade dolorosamente tangível. Quem vos escreve geralmente se esconde atrás de metáforas que talvez explicam o que sinto, mas, desta vez, falarei não através de poesia e ideologia, mas de imagens, ainda que mentais.

            Imaginem ruas tortuosas com casebres de madeira que, por uma ironia da arquitetura e destino, ainda se mantém de pé. Dentro delas, há pessoas que não sabem como vieram parar ali. A pele repleta de óleo, refletindo o sol forte da primavera enquanto a criança olha a geladeira vazia. Estão no fim do fim, e, sem que percebam, acreditam que, de alguma forma, aquilo jamais irá mudar.

            Na ponta oposta, sobre um belo palco de madeira enquanto traja a camisa de algodão que molda suas formas suínas com absurda propriedade, um homem discursa. Bela e profundamente, com a técnica aprendida em escolas que seus eleitores jamais terão a chance de cursar.

            O que liga os dois extremos? Domínio. A relação política e ideológica exercida pelo homem-porco sobre o faminto cuja única opção – e obrigação – é votar naquele que não conhece – ou ignora, no melhor dos casos – sua existência. E assim continuamos a roda viva do domínio. Uma pena que o previsível final seja sempre o mesmo. O pobre continua pobre, adianto-lhes.

            Enquanto transpassava as ruas estreitas de paralelepípedo dentro daquele humilde Fiat Uno, conheci histórias através de olhares. Histórias que jamais serão contadas, passados que serão esquecidos sob a sombra da ganância daqueles incapazes de observar o próprio ego sob outra perspectiva que não a arrogância.

            Mas amanhã nos é vendida a ilusão de que tudo pode mudar. Neste sete de outubro você pode! Vamos lá, é só apertar o botão confirma! Pontes serão construídas, médicos serão contratados, e, todos sorridentes, as mentiras poderão ser contadas de maneira diferente.

            Não me esqueço, entretanto, que enquanto dominados, pedem pouco e pedem errado. Não mudam, muitas vezes, por acreditarem que alguns trocados em período eleitoral são mais válidos do que um bom candidato eleito. Falo por experiência própria, uma vez que, dentro do mesmo Uno barulhento também estava uma candidata que, impossibilitada de fornecer qualquer outra coisa além de um bom plano de governo – não por falta de recursos, mas por excesso de dignidade, diga-se de passagem – vê-se rejeitada por inúmeros miseráveis que solene e mediocremente acreditam que a solução para tudo aquilo são onças e micos fornecidos por homens que lucrarão o triplo do gasto.

            Alterno, como observador, entre a pena e a soberba. Por que apenar-me de alguém não quer mudar? Por que não ajudar alguém vítima de um determinismo desprovido de dignidade?

            Mas amanhã tudo pode mudar. Amanhã tudo vai mudar. Substituirão a administração do chiqueiro, e como bons porcos dominados e dominantes, se refestelarão na lama por outros quatro anos. Na mesma lama onde crianças morrem por falta de comida, onde idosos padecem por falta de medicamentos e, pior, na mesma lama onde poderiam estar erguidos diversos outros monumentos que louvariam nossas escolhas políticas.

            Mas amanhã tudo pode mudar.

            Entretanto, como bom observador, soberbo e piedoso, duvido desses dias melhores.

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Carta do Amante #01

Eu não sei de onde saiu tudo isso. Enquanto eu acreditava ser envolto na mais adocicada das nuvens, algo estranho parecia contornar minha silhueta, esquivando-se para o lado esquerdo do peito, e gritando: acorde. Antes que seja tarde.

Vozes são apenas vozes, e aos esquizofrênicos o calor do abraço vem de uma camisa de força.

E agora o que me resta é o amargo na boca por descobrir que você é a mais solene, sublime, verdadeira e indelével das putas. Destruir corações enquanto brinca com a genitália alheia parece, em algum instante, ser divertido para você. Correção: isso parece ser divertido todo o tempo. Pelo menos para você.

Eu não sei o que te fizeram, ou qual foi a justificativa dada, mas isso não lhe dá o direito de solapar tudo o que, para os outros é precioso. Eu não sei qual é sua desculpa, mas sentimentos são sentimentos. Todavia, putas são putas. Apenas putas. Como você.

E agora eu quero que você veja o rastro de indiferença que deixo diante de você. Quanto a mim, me presenteie com amnésia. Esqueça-se, corra para os braços insignificantes, como os que você achou que eram os meus. Foi seu maior engano. Você usou quem jamais lhe usaria. Você mentiu para quem jamais mentiria para você. Você desprezou quem te tratava como tudo de mais precioso.

A partir de então, eu sigo mais forte. E você, mais puta. Mas só puta, que jamais vai entender o que é estar nos braços de alguém que faria absolutamente tudo por mais um sorriso seu.

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Pedaços de Passado e Solidão

Existe em todo homem uma larga fatia de vazio. Em cada esquina das salas circulares da alegria fingida existe, em seu estado mais puro, a solidão. Fraqueza primeira de todos os homens, tal qual doença crônica, corrói as paredes mais escondidas e tal como a patologia, nasce conosco. Aparece já tarde, talvez demais.

     Contentamo-nos com alegria enlatada porque o caos não permite cronogramas. A infelicidade é tinta de difícil remoção, e tal como a vítima descrente do próprio destino, gritamos, tentando evitar em última instância o que foi selado desde o início. Nosso grito é o sorriso, o despertar libertino, a nudez, a leitura; o amor em todas as maléficas espécies que, no fim, tomam de nós o que jamais nos pertenceu.

     Em poucos indivíduos a solidão se manifesta mais do que em quem encontra no papel o único amigo – traiçoeiro amigo de muitas faces e vírgulas -, pois é só ali, naquele sangue azulado da caneta estourada ou no tintilar mentiroso do cursor, que ele se relaciona, e, em limitado estágio, desaprende por instantes a deixar de ser só. Não existem pessoas, vidas, amores ou felicidades duradouras. Só o papel é eterno, e, mesmo que queime, suas cinzas serão eternamente carregadas dentro do compartimento que o vento jamais levará. A solidão.

     O passado, já tardio, é carne suculenta do voraz animal habitante das savanas de nossa própria alma. Há cores que não existem, e palhetas que jamais serão descobertas. Não existem mais Blues como os de outrora, e, fracos, não há mais compositores. A música ficará presa em cofres intransponíveis, atada à poesia e perdida em insolúvel substância. Tristeza.

     Há, em todo homem, o olhar da garota que espera algo que não sabe o que é. O vento bate em seus cabelos, a luz amarela do poste alto deixando sombras inolvidáveis no asfalto em noite fria. Esperamos pelo que não virá, e pelo futuro inalcançável mastigamos o passado que jamais será corretamente digerido. O ponto final existe até mesmo no término de reticências que, como poeta, não devo utilizar.

     Mas acredito. Creio solenemente no poder do infinito, tendo fé de que o homem não acaba quando termina em solene e intragável filosofia. Fumo cigarros que não terminam no filtro, mas na garganta, porque, ambicioso, aspiro tudo o que, em certa dose, faz-me mal. Sou apenas um homem só, abandonado pelo próprio existir.

     Não mais existo, agora sou. Sou em última esfera. Sou em todos os verbos, luzes e carnes. Sou o último estágio do ser. Sou, enfim. Sou só, sou solidão.

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