Contos

Propriedades Atômicas do Ar

luzia

Fracassara, mais uma vez. O apartamento estava limpo, a tevê, ligada, e as cortinas balançavam devagar contra a parede que brilhava sob o sol vespertino. E ali estava, jogada sobre o sofá, derrotada em mais uma tarde habitual. Seu desistir era tão intenso que as próprias pernas não conheciam outra posição se não retilineamente dobradas, as mãos sobre as saias floridas, a pele macilenta agora enrugada e oleosa pelo esforço para retirar a poeira dos inúmeros porta-retratos que contavam a história de outros natais, feriados que ela não sabia bem se podia chamar de seus.

Era um espírito domesticado e doméstico. Carregava n’alma o crachá de dona-de-casa, e passar o dorso da mão na testa suada já lhe era repetição habitual ao final de cada repetida rotina. A própria existência, nesta parte do ano — nos malditos sete dias entre o natal e o ano novo — doía-lhe como dói a agonia a qualquer um de nós. É a dor de não ser, a excruciante memória da partícula de possibilidade, que se expressa em letras garrafais na existência de todos nós, risca a alma e alardeia a solidão. Se. 

Seus pares de costela pareciam envolver o que gostaria que não fosse mais protegido. O coração saltava como massa gordurosa no próprio peito, os mais de quarenta anos doendo, enfim. As trezentas e sessenta e cinco possibilidades começavam a se fechar agora, em poucas horas que memoravam-na de sua lamentável capacidade de transformar páginas em branco em coadores de café usados. Não escrevia livros. Não fazia poemas. Sequer sabia calcular. Café coava, entretanto, com maestria. Durante este tempo de conclusões, limitava-se a encarar a parede por detrás da tevê, sem nada sentir, sem jamais existir, sem nunca ter sido. Era apenas dias amontoados para dar sentido a existências que não a dela própria. Uma escrava do confortável sistema de uma casa sem goteiras.

Por um instante, pensou no impensável. Pensou naquilo que, de tão escondido e encravado, pensou jamais existir. Desrespeitando paradoxos, tocou o próprio seio para se certificar de que a vida ainda explodia em si. Vida, riu-se. Aproximou-se da janela e olhou para o Leblon, muito abaixo. Oito andares, dezesseis janelas, incontáveis transeuntes, uma calçada.

A porta se abriu, gritaram por ela e jogaram a mochila pesada no sofá limpo. Mãe, diziam. Mãe, Amor, Mulher. Perguntava-se se ainda sabiam seu nome. Pior: se perguntava se já tivera um nome, um fonema que ligasse o sentido ao rosto, a vida ao momento e que fizesse Deus, por um instante, ter carne. Questionava a si mesma se ainda sabiam que ela vivia, se não era mero cadáver que, talentoso, lavava copos, limpava carpetes, fazia amor sem paixão e acordava junto do sol.

Niilismos à parte, não sentia a vida tão doída ao longo do ano. De janeiro à metade de dezembro, viver não dói. Passando pela semana entre o falso nascimento do salvador e o festival de medíocres promessas, tudo desmorona. Toda a vida lhe esmaga o rosto e comprime os pulmões. Talvez fossem as propriedades atômicas do ar. Na mesma medida em que todos festejavam mentiras vendidas por plantadores de pinheiros e fabricantes de calendários, Luzia era vulnerável às próprias mentiras, que desconstruíam-se sob o olhar alegre e desatento de todos os outros. Jamais fumou; dá câncer. Nunca bebeu; teme a cirrose. Não se permitiu dançar; as fraturas lhe arrancam arrepios. Em hipótese alguma viveu; teve medo de fazer mal.

Era apenas um avental, espanador, rodo e vassoura. Acabara por ser apenas substâncias alheias que sua essência se tornaram enquanto, pouco a pouco, desistia de ser a coragem que ninguém jamais lhe incutira. Era covardia em poucas dezenas de quilos. Não havia sequer potencial para vida. Era como Marte; conjecturas de quem lá viveu, civilizações e inventos construídos, histórias contadas… apenas hipóteses. A vida inteira lhe doía por ser apenas suposição.

Atormentou-lhe a perspectiva de mais um ano sendo a doméstica dos próprios sonhos, lambendo o chão de palacetes que a própria falta de amor lhe permitiu construir. Terminaria com tudo aquilo. Em cabal decisão, mudaria o rumo da própria vida. Trocaria de roupas, mudaria o guarda-roupa, compraria coragem, queimaria o arroz e sairia de casa usando nada além de sapatilhas.

Empacotou todos os vestidos floridos — eram tantos! O desânimo pela vida era tanto que até as roupas lhe compunham a alma. Sempre flores, flores amarelas, brancas, margaridas, sempre a maldita flora de velório —, os sacos pretos tomando toda a superfície da cama larga que fingia dividir com o homem que supostamente deveria amar. Vestiu-se com a peça que guardara para ocasiões especiais que tardariam por chegar: o próprio corpo nu, porque a nudez é o último estágio de toda celebração. Roupas e vidas são apenas fantasias. Mas como de fantasias alimenta-se o homem, pôs o mais belo vestido de cetim. Magenta, sangue, vermelho, gritante.

Desceu sozinha pelo elevador, não cumprimentando o porteiro, um crime moral naqueles cubículos de existência vazia. Roubava olhares pelas poucas quadras até o mar, os cabelos desgrenhados esvoaçando contra a brisa marítima. Se tentasse, até ouviria o violino afinado gritando-lhe aos ouvidos. Viva! Viva! Viva, Luzia, viva! Viveria, desta vez.

Foi com completo desprendimento da carne que encostou o pé na areia. O sol ainda era alto, o mar ainda balbuciava, e o mundo lentamente passou a observar tudo o que a vida ensinou-lhe a esconder. O cetim de sangue perolado brilhava contra a areia clara da praia. Descalçou-se, despudorada. Estava na praia pela primeira vez. Sequer riu. Morava diante do mar, o oceano diariamente quebrantando-lhe o rosto com os ventos de outros mundos… e jamais pisara na areia.

Por fim, correu ao mar. Abraçou a imensidão verde-azulada com a força da vida que nunca tivera. O vestido balançava contra o vaivém inconstante daquela verdade que começava a ser contada só, sublime e pecadora. Não era mais mãe, amor, mulher. Era Luzia. O nome completava a essência e a essência refletia tudo aquilo que ela jamais havia sido.

E por desconhecer a vida, não sabia dos limites do mar. Como a primeira, é infinito. Como seu oposto, é mortal. E foi assim que o chão desapareceu debaixo dos seus pés, a vida lhe engolfando num só abraço enquanto a morte, fiel companheira, sorria em aprovação.

Luzia jamais foi encontrada.

É ela, pois, a mentira que vive dentro de nós.

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