Textos

Um mar de mim

sea

Eu não tenho esquinas. Eu não tenho cantos, e isso me atormenta. Não convirjo em nenhum ponto, não sei marcar um ponto de encontro em mim mesmo. Sou oceano. Não há norte quando só se é água.

Como oceano que sou, naufrago. A mim e a outros. Minha própria profundeza me atormenta de modo que não saiba ser nada além de mim. Quero, e por querer, dirijo ao contrário, indigno que sou do fruto do meu querer. Não é autossabotagem, é ser oceano. Por vezes, a própria lua me guia sem que perceba.

Não sou homem, e como tal não sou península. Nem ilha sou capaz de ser. Sou a água que sonda, incauta, precavida. Alguns se atrevem a tocar as minhas bordas, mas sem jamais deixar de sentir o próprio chão arenoso abaixo de si. Me conhecer exige correr riscos que a falta de oxigênio não permite.

Admire minha beleza ao longe, portanto. Minhas curvas tranquilas, minhas ondas serenas diante de rochedos. Tempestades virão, e maremotos são o resultado de dores mais profundas que meu âmago por vezes não comporta.

Me permita ser água, me permita ser oceano. Uno, indivisível. Só.

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Textos

Flores em Fôrmas

     Me entristecem vidas vividas pela metade. Pessoas acreditando em ideologias compradas em belíssimas latas de acrílico. Universidades vendem Marx, o governo vende Smith. E nenhum dos dois fornece vida, fornece pensamento, fornece verdade.

     E a vida passa pelo previsível caminho do comum. Olhares são circunscritos ao âmbito dos dedos indicadores. E ninguém se preocupa em plantar poesia para colher canções. Todos estão felizes semeando verdades geneticamente modificadas pela televisão. Sujam até mesmo marcas da revolução, com camisas estampadas vestidas por porcos que desconhecem o sentido da saudade daquilo que nunca tiveram.

     Cansam-me pessoas que projetam em vidas alheias esperanças de melhoras para doenças que apenas elas carregam. Sou saudável por independer da aprovação desses caboclos burgueses que encontram na rotina de oito horas a sustentação dessas bases fracas da sociedade moralmente falida.

     E assim a guerra continua. Bombas no Irã, sistemas econômicos nas salas de renomadas universidades, e ninguém mais se importa com os pobres e atingidos. Atacam-se os meios, não se pensa nos fins. Cansa-me toda essa falácia.

     Sonho em viver menos, para talvez viver melhor. Sonho com menos mentiras, mais sorrisos, menos telejornais, mais bons livros.

     Sonho em deixar de ser humano, em correr pelos campos de flores plantadas corriqueira e aleatoriamente, sem preocupação com o amanhã. Horrendas são essas flores, que belíssimas, estão em fôrmas bem polidas. Flores são isso, apenas flores, não células bem definidas em manipulação.

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