Textos

Um mar de mim

sea

Eu não tenho esquinas. Eu não tenho cantos, e isso me atormenta. Não convirjo em nenhum ponto, não sei marcar um ponto de encontro em mim mesmo. Sou oceano. Não há norte quando só se é água.

Como oceano que sou, naufrago. A mim e a outros. Minha própria profundeza me atormenta de modo que não saiba ser nada além de mim. Quero, e por querer, dirijo ao contrário, indigno que sou do fruto do meu querer. Não é autossabotagem, é ser oceano. Por vezes, a própria lua me guia sem que perceba.

Não sou homem, e como tal não sou península. Nem ilha sou capaz de ser. Sou a água que sonda, incauta, precavida. Alguns se atrevem a tocar as minhas bordas, mas sem jamais deixar de sentir o próprio chão arenoso abaixo de si. Me conhecer exige correr riscos que a falta de oxigênio não permite.

Admire minha beleza ao longe, portanto. Minhas curvas tranquilas, minhas ondas serenas diante de rochedos. Tempestades virão, e maremotos são o resultado de dores mais profundas que meu âmago por vezes não comporta.

Me permita ser água, me permita ser oceano. Uno, indivisível. Só.

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